O futuro do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) depende do equilíbrio entre proteção ao trabalhador, liquidez e capacidade de investimento de longo prazo. Foi essa a premissa apresentada durante o painel “FGTS: Desenhando o Futuro 60+”, realizado no Encontro Internacional da Indústria da Construção (ENIC) 2026, nesta terça-feira, no Distrito Anhembi, em São Paulo.
O encontro reuniu representantes do governo, trabalhadores, empresários e integrantes do Conselho Curador do FGTS para discutir os desafios e caminhos para preservação do fundo. O debate também apontou preocupação com medidas que ampliam modalidades de saque sem previsão de novas fontes de recursos, o que pode comprometer a capacidade de investimento do FGTS em habitação e infraestrutura urbana.
O vice-presidente de Habitação de Interesse Social da CBIC, Clausens Duarte, alertou para o risco de esvaziamento gradual do FGTS por meio de medidas pontuais que retiram recursos do fundo sem novas fontes de compensação. “O risco não é que ele acabe de imediato, mas que o FGTS vá se esvaziando aos poucos, comprometendo uma política de Estado”, disse.
Segundo ele, preservar o FGTS significa também preservar a capacidade do país de investir em moradia popular. “O FGTS é o pecúlio, não é complemento de renda. O setor defende os dois: pecúlio e renda. Precisamos trabalhar para aumentar a renda do trabalhador com qualificação profissional e investimento.”
O presidente da CBIC, Renato Correia, ressaltou a importância histórica do fundo para o país e defendeu a necessidade de discutir novas formas de sustentação financeira diante das mudanças nas relações de trabalho. “O FGTS é uma ferramenta extremamente brasileira, fundamental para garantir um direito constitucional. O déficit habitacional começa a dar sinais de redução e não podemos deixar as coisas desandarem”, afirmou. Para ele, a discussão sobre o futuro do fundo passa também pela revisão da tributação sobre a folha de pagamento e pela adaptação às novas dinâmicas do mercado de trabalho.
O ministro das Cidades, Wladimir Lima, afirmou que cerca de 11 milhões de moradias já foram contratadas com recursos do FGTS desde a criação do fundo. “O sucesso do Minha Casa, Minha Vida se deve muito ao FGTS e aos parceiros que executam essa política pública. Queremos que os próximos 60 anos sejam de mais investimentos em habitação, urbanização de favelas, mobilidade urbana, drenagem, saneamento e infraestrutura para as cidades brasileiras”, declarou.
O secretário do Ministério do Trabalho, Carlos Augusto Simões, destacou o caráter híbrido do FGTS como um dos pilares da estabilidade do fundo. “Durante muitos anos o FGTS foi visto apenas como uma poupança forçada, mas ele é também um instrumento de política pública. Essa dupla função é o que faz do fundo uma experiência única”, afirmou.
O painel teve a participação de dois membros do Conselho Curador do FGTS. Abelardo Campoy Diaz, representante dos empregadores, defendeu uma parceria com o Congresso para proteção do FGTS. Enquanto José Belém, representante dos trabalhadores afirmou que é preciso “continuar a defender o fundo como garantia de moradia”.
O diretor executivo de Habitação da Caixa Econômica Federal, Roberto Carlos Ceratto, destacou a importância da atuação conjunta entre setor público e iniciativa privada. “Essa soma de esforços entre governo e empresários tem uma força muito grande pelo impacto que a moradia gera na vida das pessoas. O FGTS tem feito a diferença e precisamos ampliar as possibilidades, mas preservando sua capacidade de crescimento”, afirmou.